Por: Mônica Alves

O Brasil acorda, vive e dorme sob o bombardeio incessante das casas de apostas. Basta ligar a televisão ou acessar rede social antes para perceber que a União não apenas permitiu o avanço das casas de apostas, mas, entregou o país a elas.
O que no início nos venderam como um entretenimento inofensivo e uma promissora fonte de arrecadação fiscal, se revelou, na prática, uma engrenagem voraz. Uma engrenagem que capturou o nosso mercado, capturou o nosso esporte e, o mais grave, vem corroendo a vida de milhões de famílias brasileiras.
E, pasmem: para entender a dimensão dessa subserviência e dependência, não precisamos ir longe; basta a gente olhar para o futebol nacional, a maior paixão cultural do país que, há poucos dias, emitiu uma nota oficial pela diretoria do Flamengo diante das movimentações do Governo Federal para conter ou proibir a atuação das bets no Brasil. Ao protestar contra a medida alegando “insegurança jurídica” e risco de colapso financeiro nas estruturas do clube, a direção rubro-negra fez mais do que defender seus contratos comerciais: ela assinou um atestado explícito de sujeição. Quando a maior e mais rica instituição esportiva do país admite que o futebol não se sustenta sem a irrigação contínua do dinheiro de apostas, fica claro que o esporte perdeu a sua autonomia. O futebol virou mero pano de fundo para a roleta digital.
O domínio sobre o futebol brasileiro é o exemplo mais nítido dessa capitulação. Hoje, é praticamente impossível assistir a uma partida sem ser assediado por dezenas de marcas de apostas estampadas nas camisas dos clubes, nos painéis do estádio e nas transmissões esportivas.
Essa “venda” que fizeram do país, contudo, não se limita somente aos gramados. As casas de apostas drenaram recursos do mercado financeiro e da economia real, afetando o orçamento das famílias brasileiras e desviando o consumo de bens essenciais para o abismo da ilusão do ganho fácil.
A contradição se torna ainda mais evidente na esfera política. O mesmo Governo Federal que abriu as portas e regulamentou a proliferação dessas plataformas agora ensaia atos de força e discursos inflamados contra o setor. Em plena corrida de conveniências políticas e em tom de urgência eleitoral, tenta-se dar uma “canetada salvadora” para conter o monstro que o próprio Estado ajudou a alimentar. É a política do apagar de incêndio: cria-se o problema, permite-se que ele crie raízes profundas no consumo das famílias e na economia real, e depois busca-se o aplauso fácil ao tentar proibir aquilo que antes se chancelou.
Mas para além do viés econômico, do futebol e das manobras de Brasília, existe o fator humano e é nele que essa conta se torna verdadeiramente sombria.
Por trás das telas coloridas e dos influenciadores sorridentes que prometem dinheiro fácil, há um rastro invisível de destruição. O vício em apostas virtuais não é apenas uma perda financeira pontual no orçamento mensal; trata-se de um mal silencioso e homicida, no sentido mais trágico da palavra. Quantos trabalhadores perderam o salário do mês, a dignidade e a paz familiar? Quantas pessoas, tomadas pelo desespero do endividamento irrecuperável viraram dados frios nas estatísticas de depressão e suicídio no nosso país?
Não podemos aceitar que vidas continuem sendo tratadas como margem de erro ou custo colateral de uma atividade que o próprio Governo permitiu escalar sem freios. O Brasil não pode continuar refém nem de bancas de apostas digitais, nem do oportunismo político de quem finge surpresa com o estrago que ajudou a causar.
O debate entre banir definitivamente (criminalizar) ou regulamentar de forma rígida as casas de apostas toca na ferida central da relação entre economia, vício e saúde pública. E isso, querendo ou não, precisa ser feito; mesmo que eu, pessoalmente, acredite que regulamentar tal mal seja apenas uma ilusão. Até porque os modelos das bets não é idealizado para mero entretenimento. Já é da “raiz” das plataformas serem viciantes e enganadoras.
