Artigo de Mônica Alves: Conheça “as vidas” de um caminhoneiro na estrada

Ser caminhoneiro é partilhar de um estilo de vida, com vantagens e, claro, como tudo na vida, com desvantagens também

Quem ainda não se deparou com caminhoneiros nas milhares de rodovias e estradas do Brasil?

Mas, será que todo mundo sabe o cotidiano desses profissionais até que chegue nas prateleiras cada item, objeto e alimentos trazidos pelos verdadeiros guerreiros e “amantes” desta profissão?

Nossa história sobre “as vidas por trás de um caminhoneiro na estrada”, começa com Flávio, morador de Sorocaba, 50 anos de idade, 25 de profissão, motorista autônomo que já rodou por cada canto deste país e que iniciamos uma experiência in loco com o seu mundo de estradas, fretes, cargas, pedágios, perigos, insalubridade, dificuldades  econômicas oriundas de um mercado monopolista, entre muitas outras coisas que apenas um caminhoneiro conhece, sente e enxerga.

A profissão de caminhoneiro sempre foi e é de extrema importância para a economia do país, que desde o governo de Washington Luís, prioriza o transporte rodoviário, em detrimento do ferroviário e fluvial.

A viagem começou com Flávio indo nos encontrar em Arujá, onde, de lá, fomos  entregar 11 toneladas de ração até uma fazenda na cidade de Campo Grande-MS.

Para nos encontrarmos em Arujá, saímos do bairro do Sumaré e, ao longo do caminho, em uma estrada de asfalto em perfeito estado e privatizada, pagamos, uma única vez pedágio de R$ 3,70, mas, nos arredores, em contraste com uma estrada bem sinalizada e asfaltada, favelas, algumas claramente dominadas por traficantes de drogas, horta comunitária e um Centro de Tratamento de esgoto da SABESP.

O local em que os caminhões ficam parados em Arujá é muito grande, um imenso pátio com galpões alugados para empresas multi nacionais, com precárias estruturas para a parada cotidiana dos caminhoneiros.

São aproximadamente uns 20 galpões de empresas que lá descarregam e carregam as mercadorias. Tem caminhões que ficam lá mais de um dia descarregando, como no caso do nosso viajante, que passou 48 horas no local, até a vez de carregar a carroceria do seu caminhão.

Grande parte dos caminhoneiros passa muito tempo nas estradas.
Estamos falando de semanas e até meses, fazendo das rodovias, postos, pequenos restaurantes e, da boleia do caminhão, suas verdadeiras residências!

Uma das  empresas que Flávio presta serviço, vai ter o seu nome ocultado, mas, é uma empresa considerada de grande porte no ramo de transporte.

Flávio recebeu pelo frete R$2.800, 00 (Dois Mil e Oitocentos Reais). Os pedágios, suas eventuais diárias por dias parados, o profissional mesmo paga e depois presta conta com a empresa para o repasse do valor.

A empresa recebeu pelo serviço fretado ao cliente, o valor de 6.500, 00 (Seis Mil e Quinhentos Reais), quase todos atrelados a chancela das duas maiores empresas de seguro de cargas do país que, praticamente, decidem quem trabalhará ou não.

Negociação de pagamento

O pagamento da transportadora para Flávio se dá da seguinte maneira:

– 70% antecipado ao motorista do caminhão;
– 30% após a mercadoria entregue e quando colocada nas mãos do empresário a Nota Fiscal atestando o recebimento da mercadoria.

Mas, diante de tudo isso; O que é preciso fazer para se tornar um caminhoneiro profissional?

Antes de mais nada, é importante que você conheça e decida qual o tipo de veículo que você pretende trabalhar.

Após isso, é imprescindível Carteira de Habilitação Especial (categorias D ou E) – Cadastro da ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre) – Alguns cursos especializados na área (para alguns tipos de cargas são exigidos cursos obrigatórios por lei – como por exemplo, transporte de produtos perigosos, como combustível e produtos químicos, cargas indivisíveis, que não podem ser dividida em duas ou mais partes para ser transportada, entre outros tipos de cargas.

É importante decidir, também, se o profissional quer ser autônomo, agregado ou funcionário.

No caso de Flávio, ele é motorista autônomo, faz o seu trabalho e por que não dizer, o seu horário?!
Mas não é por isso que o trabalho pode ser visto apenas pelo lado vantajoso, pelo contrário, assim como Flávio, todos os outros colegas caminhoneiros passam por condições, diariamente, que fogem do controle “da vantagem”.

Cansativo e Insalubre

O trabalho pode ser bem cansativo, até porque, além de passar horas dirigindo, o motorista ainda encontra dificuldades para regular seus horários de alimentação, banho e descanso.

Pudemos acompanhar que, geralmente, nos postos de paradas dos motoristas, os locais não têm quase nenhuma estrutura.

– Banheiros sujos; O banho, às vezes, é gratuito, em outros postos pode custar até R$ 8,00 (Oito Reais)
– lanchonetes com alimentos expostos, sem nenhum tipo de vigilância;
– a refeição em algumas paradas sai a R$18, 00 (Dezoito Reais)
– vendedores ambulantes em motos;
– em muitos casos, os motoristas fazem as suas comidas e refeições em cozinhas adaptadas dentro do próprio veículo.
– sem contar com a má qualidade de algumas estradas, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste do país. Essa pode ser a maior desvantagem da profissão.

Falar sobre “as vidas” dos profissionais da estrada surgiu da ideia de mostrar uma realidade muito desconhecida
pela maioria dos brasileiros – a realidade nas estradas através da ótica de um caminhoneiro e o nosso acompanhamento ao seu lado -, enfocando o lado econômico do custo rodoviário do frete, as condições insalubres de vida do caminhoneiro, que fica até 36 horas para retirar uma carga e 5 dias para desembarcar (em locais sem a mínima higiene e segurança), sobre a terceirização das cargas por agentes autônomos, que ficam nos postos fiscais e cobram R$ 150,00 por carga, indicando os caminhoneiros autônomos para as transportadoras.
O detalhamento de todas as condições acima citadas serão amplamente pontuadas em uma edição especial de matérias que faremos sobre o dia-a-dia destes profissionais.

Ser caminhoneiro no Brasil é um desafio diário, mas não deixa de ser um estilo de vida para aqueles profissionais que fazem da sua profissão, uma arte!